A marquise do Ronaldo

Pescado de fresco um belíssimo texto de Luis Osorio no FB

1. O problema não é a história da marquise de Cristiano Ronaldo. Se não podia ser construída que se resolvesse o problema de acordo com o que a lei determina – ninguém está acima da lei e Ronaldo compreenderá certamente isso. Não, o problema não é a marquise.O problema é outro, o do preconceito de alguma elite que, no fundo dos seus fundos, espera sempre por uma oportunidade para rebaixar com um preconceito de classe. “O bimbo”“O saloio”“O matarruano”. Basta um meio deslize e uma declaração indignada de um arquiteto da moda “Que ignóbil”“Estou chocado”“É uma conspurcação”. José Mateus é o arquiteto que definiu, por estas e outras palavras, a marquise.

2. Não, o problema não é a marquise. O problema é o dinheiro de Ronaldo. O problema é o despudor do sucesso. O problema é a forma como muitos dos nossos bem-nascidos – ou dos que inventaram ser bem-nascidos – assim que têm uma oportunidade se revelam no pior que a arrogância tem. Bastou uma marquise para que Ronaldo passasse a ser gozado pelo mau gosto, pela pornográfica ostentação, pela falta de respeito que tem pelo que é verdadeiramente bom. E ouvimos e lemos…”O gajo pode ter muito dinheiro, mas no fundo continua a ser o que nasceu num buraco”. “O tipo pode estar coberto de ouro, mas faça o que faça será sempre o menino sem gosto, sem cultura, miserável de espírito”. “É muito bom a jogar futebol, mas o resto é uma desgraça.”

3. O problema não é mesmo a marquise. O problema é o preconceito. O problema, caro arquiteto, não é a conspurcação do que foi feito, o choque que sentiu por lhe terem alterado o projeto ou as suas adjetivações. Não, o que é ignóbil não é a marquise. O ignóbil é existirem pessoas que morreram por falta de cuidados e de equipamento em cuidados intensivos – e Ronaldo não tinha (como o fez) a obrigação de financiar um novo serviço de cuidados intensivos no Hospital Santa Maria e com isso gastar mais de três milhões de euros. Ignóbil é existirem crianças que morrem com leucemias, cancros nos ossos ou paralisias cerebrais – e Ronaldo não tinha (como o fez) de pagar este ano, e anonimamente, os tratamentos de mais de vinte crianças. Peço desculpa por cometer a indelicadeza de aqui o revelar. Ignóbil foi não existirem ventiladores suficientes na Madeira durante o pico da pandemia – Ronaldo não tinha (como o fez) de pagar cinco ventiladores ao Serviço de Saúde da Madeira.

4. A marquise não é um assunto importante. Se é ilegal que se resolva o problema. O problema é a vontade de achincalhar.A vontade de humilhar, de sorrir com desdém, de gozar o prato, de vingar a terrível circunstância de ver um zé-ninguém ter a desfaçatez de pôr e dispor das ideias e do talento das elites. O problema é ele pôr e dispor como se fosse bem-nascido e não um pé descalço criado num buraco do Funchal e com um pai alcoólico. Por aqui se vê que a marquise foi apenas o pretexto para muitos se terem indignado com a falta de educação, a falta de gosto, o subúrbio humano que é Ronaldo. Não se faz.Simplesmente não se faz. E isso sim foi ignóbil e uma conspurcação.

Luis Osorio

Foto retirada do fb de Luis Osorio

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