Brasil, um celeiro de novas variantes do coronavírus

“Estamos mergulhando em uma onda totalmente cegos.” Esse foi o desabafo do médico pernambucano Demetrius Montenegro, chefe do Departamento de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC), no Recife, e uma das referências no tratamento de pacientes com a Covid-19 no Estado.  

Em entrevista coletiva remota concedida na tarde desta quinta-feira (25), Demetrius Montenegro disse que a falta de investimentos do Governo Federal em laboratórios que trabalham com sequencimanto genético de vírus como o Sars-CoV-2 tem prejudicado a tomada de medidas no enfrentamento à pandemia. 

“É importante saber que o Brasil, apesar de ter a tecnologia para identificar essas variantes, não está tendo apoio para os laboratórios de ponta identificarem, o que é extremamente importante do ponto de vista epidemiológico”, destacou o médico. 

No momento, existem, comprovadamente, três variantes de interesse, como são chamadas aquelas que apresentam mutações que agregam benefícios aos vírus, podendo torná-lo, entre outras coisas, mais transmissível e/ou mais agressivo. 

São elas a P.1, oriunda do Amazonas; a B.1.1.7, oriunda do Reino Unido; e a 501Y, oriunda da África do Sul. Em comum, todas têm mutações na proteína Spike, que liga o vírus às celulas humanas. 

Dessas, a P.1 está comprovadamente circulando em Pernambuco. Mas já há registros da B.1.1.7 em outros estados do Brasil, como o Espírito Santo, além do Distrito Federal. O estado capixaba, incluisve, tem sugerido que essa variante é mais letal que outras cepas do Sars-CoV-2. 

Sabemos dessas que são conhecidas. Mas quantas outras ainda desconhecidas podem estar circulando sem que a gente tenha conhecimento? Isso é uma grande interrogação. Precisava ter um apoio do Governo Federal para ampliar os estudos dessas amostras. Ainda é muito pouco para uma efetiva vigilância epidemiológica, como o resto do mundo faz. Só por curiosidade, a P.1 foi descoberta pela primeira vez no Japão. Já estava causando a pandemia no Amazonas e ninguém sabia. Então, pode estar acontecendo, sim, de termos outras variantes e estarmos cegos a essa situação”, pontuou o infectologista. 

Nesta quinta-feira, o laboratório Aggeu Magalhães, ligado à Fiocruz Pernambuco, confirmoua presença da variante P.1 entre pacientes residentes no Estado. Mas ela não é a única em circulação no território local. Foram detectadas ainda as variantes P.2, B1.1.16, B1.1.27, B1.1.28 e algumas outras menos expressivas, de acordo com o titular da Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE), André Longo. 

Ele alertou que o Brasil é, no momento, o principal celeiro de variantes do Sars-CoV-2 do mundo. Isso por conta da velocidade de transmissão do vírus no País, que vive um colapso sanitário. Essa velocidade aumenta o risco de mutações, ora sem tanta expressão, ora favoráveis aos vírus. E o risco acaba sendo não só para o Brasil.  

“O celeiro acaba proliferando variantes que podem trazer resistência às vacinas que estão sendo produzidas, o que pode gerar problema não só para o Brasil, mas para todo o mundo. O mundo está olhando para o Brasil por conta disso, pelo potencial danoso que o descontrole da pandemia no Brasil pode trazer para o mundo”, explicou Longo, dizendo que já se fala ainda no surgimento de uma quarta variante de interesse, mas que ainda não há muita clareza sobre ela. 

Folha de Pernambuco

Foto: Jose Dias/PR

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