Comparar o Chega ao Partido Comunista ou ao Bloco de Esquerda é pornográfico.

Reproduzo aqui um excelente e arrepiante texto de Luís Osório retirado do FB.

1.Mais pornográfico do que o acordo PSD com o Chega nos Açores – e do reiterar por parte de Rui Rio da disponibilidade para que esse acordo possa ser nacional – é o repetir do argumento de que não faz sentido criticarem o PSD por se aliar ao Chega quando o PS se aliou ao Partido Comunista e ao Bloco de Esquerda. Um argumento ensaiado por vários comentadores dispersos por aqui e por ali. E repetido até à náusea nas redes sociais por pessoas comprometidas com a possibilidade de uma nova ordem à direita. O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda são tão maus ou piores do que o Chega é o mantra que passou a ser uma palavra de ordem. E é isso que iremos ouvir nos próximos larguíssimos meses.

2.Comparar um partido com simpatias pelo fascismo, um partido que faz pactos com movimentos populistas em toda a Europa, um partido que deseja o regresso da pena de morte, que quer vigiar muçulmanos e expulsar ciganos, que grita aos quatro ventos que deseja instaurar uma “quarta República” e um partido em que militantes chegaram a defender que as mulheres que abortam deveriam ficar sem ovários não pode ser comparável – nem por brincadeira – ao Partido Comunista.

3.E o simples facto de isso ser ensaiado por gente do PSD – em nome da ambição do poder, é a triste prova de que em nome da vingança em relação a António Costa irá valer tudo – até um pacto com o demónio. Vamos lá a ver. O Partido Comunista é um partido com 100 anos. Ao longo da sua história viu largas centenas de militantes morrerem em nome de uma ideia de libertação do fascismo salazarista. Enquanto os outros desistiam o PCP manteve-se na luta. Não desistiu. Não se rendeu. Milhares foram torturados, centenas mortos, quase todos viram as famílias ser atingidas, chantageadas, todos deixaram de ter a possibilidade de trabalhar ou de existir como seres humanos. E nesse combate inclemente contra a ditadura estiveram ao lado e participaram em campanhas políticas de apoio a figuras que não eram comunistas. Norton de Matos e Humberto Delgado foram apoiados fortemente pelo PCP.Da mesma maneira que estiveram ao lado de projetos que aglutinavam muitos outros democratas não-comunistas como a CDE (apenas para dar um exemplo)Já agora, em 1975, no final do PREC, quando todos vaticinavam que o PCP iria tomar o poder por ter, aparentemente, o controle do poder militar e das armas, foi Álvaro Cunhal e o seu secretariado quem travou a possibilidade. E essa foi a razão para que Melo Antunes, o ideólogo do 25 de Novembro, tenha ido à televisão defender os comunistas e defini-los como essenciais à democracia. Na história da democracia portuguesa nunca existiu, e já lá vão quase 50 anos, o mínimo deslize institucional. Nos sindicatos ou nas câmaras municipais os comunistas deixaram a sua marca sem nunca colocarem em causa a democracia que ajudaram a fundar.

4.É chocante ver alguma gentalha comparar os comunistas com o Chega. Chocante comparar homens e mulheres que se sacrificaram e ofereceram a sua vida, com pessoas como André Ventura e os que o seguem. Gente como António Dias Lourenço (e poderia falar de tantos outros ou outras), sempre de sorriso franco, sempre capaz e disponível para um abraço, mas sempre com o ímpeto da luta, do combate por uma revolução em que acreditou até regressar à clandestinidade aos 95 anos.É o que penso quando nele penso. Regressou à clandestinidade, nunca me passa pela cabeça que tenha morrido.É o que penso, sim.No seu regresso a Vila Franca e ao Alentejo onde conseguiu que tantas centenas acreditassem que era possível derrubar Salazar (Saramago dedicou-lhe Levantado do Chão). No seu regresso a Peniche onde voltará a dar um salto de 30 metros para as águas de onde nenhum cabrão de nenhum PIDE acreditou que fosse possível escapar. No seu reencontro com o filho de dez anos, António como ele, que viu morrer com uma leucemia. Estava na cadeia e Salazar concedeu-lhe dez minutos para se despedir da criança.Contou-me, sabem?É como se o ouvisse. “Custou-me tanto. Queria bater aos guardas, mas seria a última imagem que o filho levava do pai. Tive de me fazer de forte, sorrir e dizer ao António que brevemente nos iríamos voltar a ver”.Como é possível comparar?

5.E como é possível comparar o Chega e tudo o que defendem com um partido como o Bloco de Esquerda? Um partido maioritariamente composto por gente que não viveu em ditadura, composto por jovens anticapitalistas (é certo), mas que mantém na sua matriz o idealismo de Miguel Portas, Fernando Rosas ou Luís Fazenda. E será André Ventura comparável a estes três fundadores ou a Francisco Louçã?

6.Não sou comunista ou bloquista, mas este é um tempo em que as pessoas têm de perceber muito bem o que está em jogo. Faz sentido que o PSD esteja magoado com a “geringonça”, sou capaz de compreender com facilidade a acidez. Deve ter custado. Mas há limites. E Rui Rio acabou de passar esses limites. Um partido democrático não se pode coligar ou entender com um partido como aquele. Não é simplesmente possível. Porque se for possível então tudo é possível.

Luís Osório

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