Fernanda Câncio e a reprovação ética

Embora discordando do calor posto nalgumas causas que defende, gosto muito da Fernanda Câncio como jornalista. Reconheço-lhe competência e coragem e, ultimamente, muita coragem na resposta às acusações de que é vítima. Mas acontece aos melhores. Estatelou-se um bocadinho no esclarecimento concedido à revista Visão. Depois de longas e substanciais linhas de argumentação impecável, clara, certeira e bem redigida (como sempre) a propósito das acusações que lhe foram feitas de envolvimento e cumplicidade em crimes no âmbito da Operação Marquês e depois da denúncia do papel revoltante, frustrante, discriminatório e criminoso do Ministério Público nesta charada, Fernanda Câncio resolve dizer que, se soubesse da “relação pecuniária” de Sócrates com o amigo, teria feito perguntas por considerá-la, no mínimo, eticamente reprovável.

Aqui está o que não percebo. Como pode ser eticamente reprovável uma chamada “relação” pecuniária entre dois amigos que mais não pode ser, na prática, do que um acordo? Sobretudo quando não existe evidência alguma de esse amigo ter sido favorecido durante o mandato de Sócrates como primeiro-ministro e, logo, evidência alguma de pagamentos feitos a Sócrates? Evidência alguma.

Para classificar a relação pecuniária entre os dois amigos de, “no mínimo, eticamente reprovável”, Fernanda Câncio teria que saber mais do que aparenta.  Por exemplo, saber não só os termos exatos do acordo entre os dois e os seus motivos (que teriam de ser sujos), mas também que o dinheiro de Santos Silva era ilícito. Ora, tudo indica que a Fernanda não sabe e tudo indica que não é. Se ao menos soubesse de fonte segura que o dinheiro emprestado por Santos Silva tinha proveniência ilícita e que Sócrates tinha disso conhecimento, ainda teria alguma lógica o que diz e deveria até ir mais longe, embora aí pudesse ser acusada de sonegação de informação relevante e de cumplicidade. Como tal não é o caso, deveria guardar os juizos morais para mais tarde.

É que, se a Fernanda não sabe nada dos termos, das condições e das razões do acordo entre os dois, como eu não sei nem quem lê o Correio da Manhã sabe, não tem que reprovar nem aprovar. Era isso que devia ter dito. Ou evitar dizer o que disse. Eles lá sabem. Carlos Santos Silva não foi seguramente obrigado a nada. Deste modo, a Fernanda está pura e simplesmente a dar crédito às insinuações do Correio da Manhã que, no seu caso, tanto repudia. Também não quero acreditar que, se a Fernanda soubesse que quem pagara o aluguer da casa de Formentera fora Santos Silva, não teria ido passar férias com Sócrates. É que a Fernanda diz ter acreditado que era Sócrates que pagava a sua (dela) parte das despesas de férias. Afinal quem pode e quem não pode ser graciosamente convidado para férias (e dispor de uma casa emprestada)? Só a Fernanda e o Marcelo?

Neste processo Marquês, a única coisa que interessa verdadeiramente é se houve corrupção ou se Carlos Santos Silva fez fortuna de forma ilegal. Se não houve nem se provar nada disto, o que cada um faz ao dinheiro é consigo.

Pescado no Aspirina B

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