Ídolos com pés de barro

Descobri este post  no blogue Arco de Almedina que dedico a todos os Santos moralistas deste rectângulo a beira mar plantado. Mesmo sabendo que nunca nenhum Santo foi moralista portanto nunca nenhum moralista sera Santo.

Os ídolos com pés de barro são aqueles que se pavoneiam pelas ruas, colocam-se, eles próprios, num pedestal, até porque só os pequenos precisam de pedestal para serem vistos, e dizem lá das suas alturas, em alta voz: «nós somos os maiores».

 De facto, são os “maiores” na mesquinhez, na pequenez de sentimentos, que os fazem ser solidários apenas com quem lhes convém, e não com quem precisa. Praticam a política do faz-de-conta. Que é assim (como se usa dizer agora): faz-de-conta que somos; faz-de-conta que pensamos; faz-de-conta que sentimos; faz-de-conta que vemos; faz-de-conta que ouvimos; faz-de-conta que fazemos; faz-de-conta que vamos…

 E faz-de-conta que o povo acredita.

 Então criam uma espécie de sociedade fictícia. Primeiro, vão eliminando, aos pontapés, pela calada, para não darem nas vistas, que é como quem diz, sorrateiramente, quem se lhes opõe; depois dão umas palmadinhas nas costas aos interesseiros, que precisamente por serem interesseiros, deixam-se, desse modo, aliciar voluntariamente; sorriem com sorrisos de orelha a orelha aos desconfiados, que perante um tal sorriso, e na dúvida, dão-lhes um benefício. Quanto aos que não sabem e não querem saber, fazem-lhes promessas que não cumprem, mas esses têm a memória muito curta, e esquecem-se deste significativo pormenor, e na próxima vez, lá estão eles, a acreditar outra vez. Aos que têm medo, ameaçam-nos com tudo o que podem, subtilmente, para que os demais não se apercebam.

 Aos outros, aos que não têm medo, arreganham-lhes as dentaduras, algumas postiças, outras com dentes dourados, outros furados, outros amarelos, pelo tempo que passam à janela da boca, ou mesmo branqueados com pastas dentífricas de luxo. Passeiam-se nos seus automóveis de milhões, e não passam cavaco senão àqueles que lhes fazem vénias, com hérnias e tudo.

 Todavia, os ídolos com pés de barro têm uma vida efémera, como tudo o que é frágil, mas não sabem, ou fingem que não sabem. Vivem como se fossem eternos. Como se não estivessem destinados a morrer num amanhã, próximo ou longínquo, mas certo e seguro. Agarram-se aos tachos (não aos da cozinha, porque esses, estão destinados à grande maioria das mulheres) como a uma tábua de salvação, pensando que esses tachos são também eternos. Como se enganam esses ídolos! Um dia, quando menos esperam, basta um ligeiríssimo tremor na voz, para que caiam dos seus pedestais e se escaqueirem no chão, que tão pomposamente pisam.

 E o que restará deles então? Fragmentos inúteis, que os vindouros juntarão, para que se faça a verdadeira e legítima justiça, e se reponha toda a verdade sobre o agora vigente Reino do Caciquismo.

 Isabel A. Ferreira

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