Carta aberta à McDonald’s (pelo direito a escolher)

Compreenderão a desilusão que elas sentem quando recebem um Supercharger, uns bélicos Transformers, e a estranheza com que perguntam se não houve engano, se aquilo não era para os meninos.

Caros senhores*,

desde que abriram portas nestas terras que sou uma incondicional frequentadora dos vossos espaços e, mesmo quando resisto a um McBacon com batatas fritas, e ao melhor “ketchup” português, não passo sem um McFlurry com M&M.

Mas, se até hoje, era o protótipo do cliente satisfeito, vejo-me agora na obrigação de protestar em nome das meninas portuguesas, que certamente só não inscrevem esta queixa no Livro de Reclamações porque não vão munidas do necessário Cartão de Cidadão.

O que as perturba neste momento não é o ponto de cozedura do hambúrguer, nem tão pouco a fritura das batatas, ou as indicações nutricionais que obcecam os pais, mas o brinde no Happy Meal que, invariavelmente, preferem.

É claro que lhes podemos explicar que não é legítimo refilar quando nos oferecem qualquer coisa, sem pedir contrapartidas mas, como certamente a McDonald’s entende, as conquistas e os privilégios adquiridos não são coisa de que se abra mão com facilidade.

Ora, até aqui, o Happy Meal era para as crianças uma oportunidade de escolher um brinquedo de que gostassem. E as raparigas, invariavelmente contaminadas pela pertença ao género com que nasceram, e por uma preocupantíssima identificação com os outros elementos do sexo feminino que as rodeiam, inclusive as princesas do Frozen, preferiam habitualmente o de menina. E os rapazes, aquele que era pensado para rapazes. Poupo-vos a uma reflexão sem fim sobre o que é da natureza e o da educação (“nature” vs. “nurture”), porque para o caso o que importa é a expectável presunção de que o cliente tem sempre razão.

Dito isto, compreenderão a desilusão que elas sentem quando recebem um Supercharger, uns bélicos Transformers, e a estranheza com que perguntam se não houve engano, se aquilo não era para os meninos. A que se segue a consternação com que recebem a informação de que agora os brinquedos passaram a ser “unissexo”.

Os pais e os avós, como eu, que gostam da McDonald’s é claro que lhes irão explicar, como forem capazes, que os senhores são boas pessoas, mas que se deixaram pressionar pelo politicamente correto, e pelas ideologias da moda, e que, coitados, pagam uma “taxa moral” pelo facto de serem uma multinacional de sucesso, mas não sei se vai resultar. Desconfio que, irredutíveis, como as crianças sabem ser, vão insistir: “Mas vamos voltar a ter Barbies e assim?”

Aí seremos obrigados a abanar a cabeça com descrença, pela simples razão de que sabemos que os senhores sabem que se os brinquedos forem muito “de menina”, serão liminarmente rejeitados pelos rapazes (e pelos seus pais!). O que, na prática, provavelmente vos irá levar a sacrificar as raparigas, que são aquelas que se adaptam melhor e refilam menos. Ou seja, a McDonald’s comete hoje uma injustiça por género pior do que aquela que pretendia corrigir – é habitualmente no que dá o fanatismo ideológico.

Também teremos vontade de dizer, e só não o farão por lealdade para convosco, que não parece que seja missão das empresas “educar” os filhos dos outros. Presume-se, até, que os filhos de pais que rejeitam a diferença de género nos brinquedos tenham, há muito, aprendido a pedir aquilo que lhes apetece, sem necessidade que façam escolhas por eles.

Compreenderão por tudo isto a necessidade que senti de vos dar nota deste protesto: as raparigas querem brinquedos de meninas mas, acima de tudo, não abdicam do direito de escolher – a 26 de Abril a reivindicação deve fazer ainda mais sentido.

Com os melhores cumprimentos,

Isabel Stilwell

* Para incluir as CEO, sem pleonasmos.

Isabel Stilwell no Negocios

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